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Real valorizado já freia a economia

Zulmira Furbino O crescimento de 5,8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre é fruto do aquecimento da economia doméstica. O volume exportado pelas indústrias brasileiras tem peso cada vez mais negativo no resultado da somatória de riquezas produzidas pelo país, multiplicando o volume de investimentos externos necessários para bancar as importações, que não param de crescer. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a exportação de bens e serviços apresentou crescimento de 4,6% no primeiro trimestre deste ano em comparação com igual período de 2007, ante um aumento de 20,4% nas importações. Com isso, a necessidade de financiamento externo do Brasil em relação ao resto do mundo já soma US$ 21 bilhões, ante US$ 900 milhões nos três primeiros meses do ano passado. “O impacto das exportações no PIB foi negativo devido ao câmbio. Hoje podemos prescindir das vendas externas para crescer por causa do mercado interno, mas é mais seguro contar com os dois mercados”, diz o consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Sérgio Gomes de Almeida. O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, explica que, este ano, o impacto negativo das exportações no PIB está mais intenso porque enquanto as importações cresceram em quantidade e em valor, as exportações só aumentaram devido aos preços das commodities no mercado internacional. Entre janeiro e março de 2008, período analisado pelo IBGE para medir o PIB, o volume exportado pelo Brasil caiu 4,8%, enquanto o valor subiu 13,8%. No mesmo período de 2007, as exportações aumentaram 7,1% em quantidade e 41,8% em preço. “Se as commodities de desvalorizarem no mercado internacional, o impacto na economia brasileira será maior ainda”, diz. Por outro lado, os investimentos na economia brasileira continuam em ritmo acelerado. De acordo com o IBGE, no primeiro trimestre deste ano a formação bruta de capital registrou elevação de 15,2% em comparação com os três primeiros meses de 2008. “Esse período foi marcado tanto pelo aumento da produção de máquinas e equipamentos, como pela importação desses produtos, ajudada pelo dólar desvalorizado”, observa a pesquisadora do IBGE e técnica da pesquisa do PIB, Cláudia Dionísio. O crescimento da indústria automotiva além das projeções, porém, tem obrigado os fornecedores das montadoras a produzir sob estresse. Baixa capacidade ociosa, trabalho em três turnos sete dias por semana e certa tensão com os fabricantes de veículos são situações vividas com freqüência na cadeia produtiva, segundo relatos de fornecedores de peças. “É claro que o crescimento é sempre um bom problema, mas já está ficando estressante”, afirma Sergio Pin, vice-presidente comercial da Schaeffler Group, que fornece rolamentos, componentes de motores e embreagem para a indústria automotiva. Como é calculado O PIB é um dos principais indicadores de uma economia. Ele revela o valor de toda a riqueza gerada no país. O cálculo do PIB, no entanto, não é tão simples. Imagine que o IBGE queira calcular a riqueza gerada por um artesão. Ele cobra, por uma escultura, de madeira, R$ 30. No entanto, não é essa a contribuição dele para o PIB. Para fazer a escultura, ele usou madeira e tinta. Não é o artesão, no entanto, que produz esses produtos – ele teve que adquiri-los da indústria. O preço de R$ 30 traz embutido os custos para adquirir as matérias-primas para seu trabalho. Assim, se a madeira e a tinta custaram R$ 20, a contribuição do artesão para o PIB foi de R$ 10, não de R$ 30. Os R$ 10 foram a riqueza gerada por ele ao transformar um pedaço de madeira e um pouco de tinta em uma escultura. O IBGE precisa fazer esses cálculos para toda a cadeia produtiva brasileira. Ou seja, ele precisa excluir da produção total de cada setor as matérias-primas que ele adquiriu de outros setores. Depois de fazer esses cálculos, o instituto soma a riqueza gerada por cada setor, chegando à contribuição de cada um para a geração de riqueza e, portanto, para o crescimento econômico. Mão-de-obra e juros são a preocupação O resultado do PIB divulgado ontem pelo IBGE mostra que a indústria continua a ser a principal alavanca da economia brasileira em 2008, liderada pela construção civil, que cresceu 8,8%, e pela indústria de transformação (7,3%). “O setor imobiliário é estimulado pela ampliação do crédito e pelos investimentos externos e o de obras públicas trabalha acelerado”, diz o presidente da Câmara da Indústria da Construção da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Teodomiro Diniz Filho. O setor, porém, já vive problemas de falta de matéria-prima, pressão nos custos e escassez de mão-de-obra treinada. Para o presidente da Fiat na América Latina, Cledorvino Belini, “o PIB do primeiro trimestre mostra que a economia continua demonstrando vigor e crescendo em ritmo consistente, o que permite manter a projeção de crescimento anual da economia entre 4,5% e 5%”. No Brasil, a expectativa da Fiat é de um crescimento de 20% no mercado interno em 2008 e de 14% na produção, além de queda nas exportações. Já o presidente da Fiemg, Robson Andrade, diz que os resultados positivos do PIB refletem ações passadas, entre elas a redução dos juros e a elevação de superávits primários da administração pública que, ao permitirem a redução na relação da dívida pública em comparação com o PIB, dão maior credibilidade à economia e favorecem investimentos. (ZF)

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