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Especulação imobiliária invade o Bairro Anchieta

Rogério Perez e Ernesto Braga CHEFE DE REPORTAGEM E ESPECIAL PARA O HOJE EM DIA É com nostalgia que o funcionário público aposentado Napoleão Delbisoni Filho, de 65 anos, nascido e criado no Anchieta, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, se lembra da época em que o bairro era formado por chácaras e casas. A que ele mora com a família, na Rua Engenheiro Amaro Lanardi, é uma das poucas que resistiu à especulação imobiliária e não foi substituída por um arranha-céu. A poucos quarteirões da residência de Napoleão está sendo erguido o Shopping Plaza Anchieta, na Avenida Francisco Deslandes. Assim como os imóveis residenciais, pequenos e tradicionais estabelecimentos comerciais do bairro dão lugar aos grandes empreendimentos. Os moradores e comerciantes destacam aspectos positivos e negativos das mudanças. Napoleão disse que já foi procurado inúmeras vezes por representantes de construtoras interessados na compra do seu imóvel. A construção ocupa uma área de 571 metros quadrados de lote, paralelo à Francisco Deslandes, que ele e a mulher dividem com cinco filhos. “Isso aqui era cheio de chácaras, com pés de manga e outras frutas. Em uma das chácaras havia uma plantação de rosas, que eram vendidas no mesmo local. Aos poucos esses espaços foram sendo substituídos por casas que agora estão sendo derrubadas para a construção de prédios. Hoje há no máximo seis casas baixas nessa parte do Anchieta”, ressaltou. “A mudança valoriza o bairro, mas me recuso a vender o terreno onde construí toda a minha vida em troca de um apartamento”, acrescentou. A acirrada concorrência e a especulação imobiliária que assolam toda a Região Centro-Sul da capital, desde o centro histórico até os bairros Sion, Anchieta, Carmo, Belvedere, Serra, Santa Efigênia, São Lucas, Lourdes, Grajaú, Santa Lúcia, Buritis e Santo Antônio, entre outros, está tendo um verdadeiro boom na Avenida Francisco Deslandes. O último lance foi com a desapropriação e compra de terreno que seria destinado a um parque ecológico e pequenos negócios de mecânica e borracharia, que ocupava quase um quarteirão entre a Rua Itapema e a Praça Marino Mendes Campos, entrada do Parque Julien Rien. “O Anchieta vem sofrendo uma verticalização muito forte. Tudo começou com o desenvolvimento do Sion, que depois encheu, e o interesse foi despertado para cá”, avaliou o presidente da Associação dos Moradores do Bairro Anchieta (Amoran), Saulo Jardim. Em volta do comentado e badalado shopping está acontecendo, há mais de um ano, uma verdadeira revolução cultural e comercial que espanta os moradores mais antigos e os novos ricos que ocupam os grandes prédios de apartamentos. “É uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que essa mudança gera uma valorização e uma visibilidade do poder público, também traz transtornos ao trânsito e atrai muita gente mal-intencionada. O Anchieta parece uma cidade do interior, cheio de moradores antigos, conservadores, que preferem o sossego”, disse Jardim. O contador aposentado Renato Salles, de 70 anos, que há 30 mora no Anchieta, é favorável à mudança. “Não dá para frear o progresso. O bairro estava velho, repleto de casas erguidas em 1950. Um imóvel com 360 metros quadrados, que há um ano e meio valia R$ 300 mil, hoje está valendo R$ 600 mil. Eu acredito que os proprietários das casas mais velhas não vão agüentar e acabarão saindo daqui. Porém, eles conseguirão vender os imóveis por um preço altíssimo”, observou. Silvio Cinque, de 78 anos, que mora na Francisco Deslandes há 32, também comemora a valorização imobiliária. Mas ressalta: “O problema maior é o trânsito, que está cada dia mais intenso”. Elizabeth Costa, 50 anos, proprietária de uma banca de jornais e revistas localizada na Francisco Deslandes com Rua Grajaú e de imóveis no Anchieta, afirma que a característica da população do bairro já está mudando. “Estão vindo morar aqui casais mais novos. Empreendimentos como o shopping trazem muitas coisas boas para a região, mas o maior movimento de pessoas tira um pouco da paz dos moradores idosos”, disse. O maior temor de Elizabeth é em relação à segurança pública. “A criminalidade tem aumentado muito. Bolsas são roubadas, um carro foi roubado ao lado da banca e até seqüestro tem acontecido”, afirmou. O comércio local, desde os anos 70, era de baixa classe média, com padarias, bares tipo `copo-sujo’, farmácias sem grandes investimentos, pequenos restaurantes, sapatarias de sapateiro-remendão, lojinhas de miudezas, lanchonetes sem sofisticação e mini-supermercados. Com a nova ordem social e econômica em vigência no Anchieta, a Francisco Deslandes experimenta um desenvolvimento e mudança impressionantes do tipo de comércio. Mercearia virou hipermercado e uma locadora de filmes se tornou uma sofisticada loja de roupas e artigos especiais e caros para homens. Para Bruno Rafael de Souza, auxiliar administrativo da Tenda do Sheik, tradicional bar e restaurante que funciona há 14 anos na Francisco Deslandes, bem em frente ao shopping em construção, o empreendimento não afastará a clientela do estabelecimento. “Nosso público é fiel e formado por pessoas mais velhas, que buscam um segmento diferenciado de comida. O shopping é mais freqüentado por jovens”, avaliou.

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